• quinta-feira , 27 julho 2017

Orquestra Jazz Tangará: primeira a garantir direitos trabalhistas aos músicos

Um som de primeiro mundo a partir de Mossoró 

Por Marcos Batista

Osquesta jazz

Em Mossoró-RN, a 7 de setembro de 1950, foi inaugurada a primeira radiotransmissão, a ZYI – 20 Rádio Difusora de Mossoró, com endereço na rua Alfredo Fernandes, s/n, Centro. Pertencente a um grupo político, tem como diretor Paulo Afonso Linhares (um dos donos). Com cinquenta e dois anos de existência, “a vovozinha da cidade”, como também é chamada, está instalada na av. Cunha da Mota, s/n, bairro Pereiros. Segundo Antônio Rosa Neto, o “Sitônio”, remanescente da Orquestra Jazz Tangará, Paulo Gutemberg, primeiro diretor da Difusora, juntamente com o radialista Genildo Miranda organizaram dois grupos musicais com a finalidade de atender os programas radiofônicos desta emissora, a Orquestra Jazz Tangará e o Conjunto Regional da Difusora.
Para compor estes grupos, foram convidados tanto músicos que aqui se encontravam quanto de outras localidades. Os instrumentistas eram inseridos neste projeto através de convite dos idealizadores ou por indicações dos componentes. Aos engajados neste projeto, a Difusora admitia-os, assinando suas carteiras profissionais como funcionário músico da ZYI – 20. Neste sentido, a Orquestra Jazz Tangará e o Conjunto Regional foram os primeiros a garantir direitos trabalhistas aos seus músicos.
D’Alva Stella, no seu livro “A História da Arte Musical de Mossoró”, cita nomes de alguns integrantes desta orquestra, entre eles: os maestros Carneiro, do Ceará, Mourinha, de Pernambuco, Dezinho, de Natal, e os músicos Totõezinho (1) – violão; Zé Gomes – trombone; Dedé – pistom; Dermival Pinheiro (4) – sax; Manoel do Pistom (6); Raimundo Baterista (7) – bateria; Zé Caldas – percussão. (FREIRE, 1957). “Sitônio” (4), pandeirista da Tangará, citou outros: João Batista (Buraen), Wilson Pajeú (2) – violão; Timbaúba (5) – sax; Edinho Uchoa – piano; as cantoras Maria Laura, Deise Melo e D’Alva Stela. (Os músicos numerados aparecem na foto).
A Orquestra Jazz Tangará ensaiava às tardes no palco da Difusora, sob a batuta do maestro e direção artística de Genildo Miranda. Entre seus integrantes, existia excelente relação, lembra saudoso “Sitônio”.
Com o repertório variado e bem ensaiado, o grupo teve seu trabalho bem aceito na sociedade mossoroense. Os gêneros executados foram: mambo, rumba, samba, bolero e baião, lembra Zé Caboré. Já “Sitônio” citou algumas músicas por eles executadas: “Mambo Jambo” – Perez Prado; “Quiças, quiças, quicas” – Osvaldo Farrés; “Baião Caçula” – Mário Gennari Filho. Afora a rádio, a Tangará animou festas no Clube Ipiranga e na Associação Cultural, Desportiva Potiguar – ACDP.
“Sitônio” comentou um fato inusitado envolvendo Paulo Gutemberg e Zé Caldas, que se tornara cômico entre os demais companheiros. Certo dia, ambos compareceram ao trabalho e por acaso se esbarraram por trás da cortina do palco, logo um percebeu odor etílico no outro, então Gutemberg exclamou: “Catinga de bebida!” A isto, Caldas replicou: “Doutor, não é o senhor?”. (Risos).
A decadência da Orquestra Jazz Tangará se deu pela falta de patrocínio para manter os projetos da rádio. Isso forçou Paulo Gutemberg a cortar gastos, por isso demitiu vários músicos e pagou seus direitos trabalhistas, disse “Sitônio”. Essa informação é reforçada por José Francisco (Zé Caboré), pois algumas vezes em que ele e outros músicos se encontravam na residência do maestro Artur Paraguai, na rua Marechal Hermes, nº 21, se ouvia sobre componentes que deixavam a Orquestra porque os salários não correspondiam mais às suas perspectivas. Em 1952, a Tangará foi desfeita.

Marcos Batista*
Especial para O Mossoroense

* Marcos Batista é músico da Banda Municipal Artur Paraguai e professor de Música da Escola de Artes de Mossoró.

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